Acompanhamento nutricional

O nutricionista tem papel fundamental no acompanhamento do paciente que fará cirurgia para obesidade - cirurgia bariátrica.

A orientação nutricional começa no pré-operatório e visa esclarecer o paciente de como será a evolução de sua dieta no período pós-operatório e iniciar o processo de reeducação alimentar que virá depois.

No pós-operatório as orientações seguem a fim de realizar a progressão gradual da dieta baseado no tipo de procedimento cirúrgico de cada paciente. Parte-se de dieta liquida sem resíduos ou Dieta de Líquidos Claros ( Fase I) que pode ser iniciada em até 24h após a cirurgia com duração de 2 a 3 dias em pequenos volumes. A dieta de líquidos claros é a primeira após o jejum cirúrgico e consiste em chás, refrescos, sucos diluídos e coados, caldos... É bastante restrita quanto ao volume e ao conteúdo de resíduos, mas apresenta grande fracionamento (aproximadamente a cada 30 minutos). Estes cuidados têm como objetivo de obter o mínimo trabalho digestivo, preservando a integridade do procedimento cirúrgico.

A reintrodução alimentar segue com a Dieta Líquida Completa ( Fase II) onde já se consegue um controle maior do valor nutricional ingerido, pois se incluem nesta etapa leite desnatado, bebida láctea e iogurtes light, caldos mais consistentes entre outros. É proibido o uso do açúcar para evitar síndrome de dumping, que pode desencadear sintomas como náuseas, vômitos diarreia, dor abdominal e sudorese. Esta fase completa um período de 15 dias e é seguida pela Dieta Pastosa ( Fase III). Esta é uma fase de transição, com introdução de preparações liquidificadas ou amassadas. Nesta fase ainda se presa pela facilidade de digestão, porem acontece a inclusão de alimentos mais íntegros e espessos como purês, frutas amassadas, feijão liquidificado, ovos quentes... o fracionamento das refeições diminui e estabelece-se uma rotina alimentar mais próxima do “normal”.

As modificações com relação à consistência englobam não apenas a apresentação da dieta, mas também fatores nutricionais que interferem no trabalho digestivo associado ao tipo de dieta, como o teor de fibras, açúcar, resíduos, gordura e tempo de cocção

Finalmente, após 1 mês de cirurgia há transição para a alimentação de consistência normal. A partir desta fase inicia-se uma evolução gradual dos alimentos de consistência mais firme e com maior teor de fibras, sempre respeitando a tolerância individual. Os pacientes devem aderir a um plano alimentar com pequenas refeições fracionadas ao longo do dia, mastigar os alimentos completamente, sem tomar líquidos ao mesmo tempo. São aconselhados a optar por refeições balanceadas que consistam em pelo menos 5 porções de frutas e vegetais por dia. A ingestão de proteínas deve ser em média de 60g ( mulheres) a 120g (homens) diariamente. Líquidos devem ser consumidos lentamente e em quantidade suficiente para manter hidratação adequada (1,5litros/dia).

Concluída a reintrodução alimentar, o objetivo passa a ser a perda de peso com adoção de técnicas de reeducação alimentar. Espera-se uma mudança permanente de habito alimentar, com mudança de estilo de vida associado. O paciente deverá abandonar hábitos nocivos e aprender a optar por alimentos pouco calóricos e com alto teor vitamínico. Desta forma a reeducação não o ajudará apenas a perder peso, mas também a mantê-lo em patamares adequados por toda a vida. O paciente não está proibido de consumir doces, refrigerantes ou outras guloseimas de vez em quando, porém esses alimentos devem ter consumo eventual e em quantidade controlada.

Os procedimentos cirúrgicos podem resultar em deficiências nutricionais que podem ocorrer devido a baixa ingestão alimentar ou por falta de absorção/digestão adequadas. Como prevenção, a adequação proteica deve ser individualizada, iniciada precocemente e mantida até que o paciente atinja uma ingestão segura através dos alimentos. Um suplemento multivitamínico e multimineral será aconselhado para uso na rotina diária, a longo prazo. Como algumas deficiências podem se manifestar ou progredir com o tempo, os pacientes devem ser acompanhados com a frequência e regularidade determinadas pela equipe a fim de prevenir/evitar complicações nutricionais.

A nossa equipe acredita que o caminho para o paciente obter o sucesso desejado é permitir ser cuidado por uma equipe multiprofissional. O paciente com obesidade severa precisa de ferramentas nutricionais e de estratégias psicológicas que o ajudem nas mudanças quanto a sua forma de comer e lidar com seus problemas após a cirurgia e nosso objetivo é ensinar essas estratégias. A cirurgia bariátrica não finaliza o tratamento da obesidade. É o início de um período de mudanças de comportamento, de hábitos alimentares e de exercícios físicos na adoção de um novo estilo de vida.

Maria Emília Fabre
Nutricionista